HISTÓRIA DA ORDEM DA SANTA CRUZ

Atualmente as pessoas estão sempre muito focadas em ir adiante, ou seja, o progresso parece ter encontrado morada definitiva no coração da humanidade. Mas é preciso tomar certo cuidado com esse progresso. É muito importante ir adiante com olhar inovador de quem busca encontrar no futuro soluções para os problemas de hoje, mas o presente não pode ser nossa única inspiração é essencial fazer memoria do passado. Olhar para história nos leva entender muitas coisas e valorizar o lugar onde estamos. Muitas vezes a história nos aponta erros que nos deixam cheios de vergonha, no entanto, mesmo os pontos mais trágicos da história são, na verdade, é um apelo para que sejamos cautelosos e sensatos na vivencia do hoje que nos prepara para um futuro. Portanto viver bem o hoje, analisando a história, é construir um bom futuro e ao mesmo tempo uma boa história.
Assim como o mundo, o Brasil e a Igreja têm suas histórias, a Ordem da Santa Cruz (OSC) também construiu uma bela história. Não diferente de tudo que é real e exposto às marcas do tempo a OSC também teve seus autos e baixos no decorrer de sua história. Hoje sou apenas um Noviço, mas ao conhecer as marcas do tempo na história da minha amada Ordem tenho a certeza de que serei um Crúzio mais autentico e sensato. Para mim, conhecer a história da Ordem é tomar consciência de tudo que me precedeu e do que estou me tornando a cada dia com o meu sim. Muitos pontos dessa história geram em mim o que poderia chamar de responsabilidade. A cada divisória que estudei dessa história uma nova chama se acendia em meu peito alimentando a paixão que sinto e me chamando a responsabilidade de ser um bom Crúzio para poder manter viva essa história que atravessou 800 anos.
Toda história começa com alguém ou na vida de alguém. Na OSC o nosso primeiro protagonista e fundador se chama Teodoro de Celles. Teodoro foi um jovem cônego muito espiritualizado do Cabido da Catedral de São Lamberto em Liège. Na época de Teodoro o cabido havia deixado de viver a comunhão de bens e abandonado certos costumes como morar juntos numa espécie de mosteiro ao lado da catedral. Isso para Teodoro era inaceitável e por isso foi um grande apoiador do bispo Hugo na tentativa de reformar o cabido que infelizmente não deu muito certo. A vida de nosso jovem cônego foi conduzida por acontecimentos marcantes. Teodoro foi enviado para as cruzadas na Terra Santa onde conviveu com um grupo de homens chamados de guardiões da Santa Cruz que viviam na Igreja do Santo Sepulcro. Em Liège Teodoro também teve uma grande proximidade a um grupo de mulheres que se chamava Beguinas que eram mulheres leigas católicas que praticavam uma vida ascética em comum, parecida com a monacal. Teodoro também não se contentou em ser um senhor do capítulo; ele cumpria todas as obrigações como cônego, mas como o cabido não adotou a reforma e não partilhavam mais os bens entre si ele resolveu partilhar seus bens com os pobres e logo ficou conhecido como o um irmão que visitava os pobres e cuidava deles como uma mãe. Quando ele foi enviado às cruzadas albigenses teve a oportunidade de conhecer São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores (OP) também conhecidos como Dominicanos. Entre outros relatos podemos notar que a vida de Teodoro foi bastante marcada pelos acontecimentos da sua época e conduzida pelas mãos de Deus.
Ao estudar e tomar conhecimento de tudo isso me sinto motivado e entusiasmado a viver minha vocação com os olhos da fé fixos no Cristo que se fez presente e visível na história de nosso beato fundador.
Continuando com a história de Teodoro podemos notar que todas essas correntes religiosas assim como tudo que acontecia a sua volta contribuíram para que ele buscasse uma vida mais autentica na fé. Em 1210 abandonou o cabido e construiu uma simples moradia ao lado da capela de são Teobaldo que lhe foi cedida pelo bispo Hugo. Ele então passou a morar ali com mais quatro companheiros. Era um lugar maravilhoso fora dos muros da cidade de Huy chamado Clairlieu.
Clairlieu quer dizer um lugar de luz. Era um lugar tranquilo próximo a um bosque de carvalhos e segundo nos conta a história era um lugar propicio para a oração e contemplação. Para nós essa palavra Clairlieu tem muito significado. Foi lá que tudo começou. Em nosso jubileu de 800 anos muito se falava de Clairlieu e usava-se o termo: Recomeçar de um lugar de luz! Para nós, Crúzios brasileiros, esse termo tem um significado ainda mais importante quando enfrentamos uma refundação da Ordem no Brasil. Sobre essa refundação falaremos mais a frente.
Desde sua fundação até os dias atuais, a OSC, vem superando crises e construindo história. A fundação é um fato bastante interessante e ao mesmo tempo misterioso se levarmos em conta que só temos documentos a partir do ano de 1248, pois neste mesmo ano queimaram todos os documentos da Ordem. Queimar os documentos pode ter apagado muita coisa de nossa história, mas não pode apagar a nossa tradição que percorreu pelos corações Crúzios através das gerações e que chegam hoje ao coração deste noviço que relata estes fatos. Coisas como o nosso cuidado com a liturgia, o oficio divino e o nosso habito são uma clara herança dos primórdios da nossa Ordem.
Ao decorrer dos anos dessa história, nossa tradição vem sido enriquecida pelos nossos confrades. Muito ainda preservamos dessa tradição como, por exemplo, o culto a Santa Cruz, a devoção a Santa Odília, a maneira de celebrar a liturgia, e entre outras atividades seguimos preservando nossa tradição. Nossa história nos possibilita ir à diante com firmeza e prosperidade, mas nos adverte para a responsabilidade de manter viva a nossa rica tradição.
Nem mesmo o corajoso fundador Teodoro de Celles poderia imaginar que a história de vida que ele construiu seria, cerca de 800 anos depois, uma inspiração para jovens como eu no mundo todo. Mais a essa história muita coisa se acrescentou como a vida de milhares de Crúzios que já partiram para a casa do pai assim como algumas crises que tiveram que ser vencidas.
Acontecimentos históricos na Europa, na Igreja e no mundo foram motivos de fortes crises em nossa Ordem. A reforma protestante, assim como o iluminismo, a revolução francesa e a interpretação Concílio Vaticano II, trouxeram grandes problemas para a vida da Ordem, mas a verdade é que todos esses acontecimentos encontraram no interior da Ordem certa crise interna entre seus membros. Talvez o exemplo mais visível disso possa ser encontrado na história de vida do nosso falecido ex-Prior Geral, Jacques Dubois.
Diante de um cenário crítico, não só para a OSC, mas para toda a Igreja, causado pela Revolução Francesa o então Prior Geral e consequentemente prior de Huy, Dubois, encontrou rejeição de seus confrades que aviam aderido a ideologia da Revolução. Com a morte de Dubois e o fim do convento de Huy enfrentamos uma enorme crise em toda a Ordem, pois não podíamos eleger um novo Prior Geral porque o mesmo tinha que ser Prior do convento de Huy que não existia mais. Com a crise instalada dentro e fora da Ordem chegamos à beira do fim. Quase todos os conventos foram fechados e não se podia mais admitir noviços na formação, por isso, sobreviveram apenas dois conventos na Holanda; o de Uden, com apenas dois membros idosos, e o de santa Agatha, com mesma situação e numero de membros.
O sol parecia ter sumido de vez e acreditava-se que não voltaria a brilhar para a OSC, quando acontece algo pequeno, mas tão importante como o que aconteceu em Clairlieu. Talvez pudesse chamar Santa Agatha de um novo Clairlieu. Em 1840 um sacerdote secular de quarenta anos foi aceito para o noviciado na OSC.  Acende-se uma pequena chama que novamente aquece o coração daqueles quatro confrades idosos que muito haviam contribuído e já esperavam por sua recompensa celeste. Em 1841 o noviço, Henrique van den Wijmelenberg, professou seus votos e em 1853, no primeiro capítulo geral desde a Revolução Francesa, ele foi eleito Prior Geral. Wijmelenberg trabalhou duro e trouxe a OSC dias de glorias com inúmeras vocações e com elas a certeza de continuar construindo história enquanto promove o Reino de Deus.
Com o aumento das vocações e o crescimento da ordem, anos depois, com um olhar para o passado exuberante, mas também trágico, o sucessor de Wijmelenberg, Martinho Manders, decide investir em missões ultramarinas. Ele viu a necessidade da Ordem crescer, também, fora das terras europeias, por isso, mandou Crúzios para fora do continente Europeu. Graças a ele hoje estamos presente, não só na Europa, mas também, na Indonésia, no Congo, nos Estados Unidos e no Brasil.
Aqui no Brasil nossa história começa em 1934 com a chegada de três Crúzios para fundar uma comunidade em Belém no Pará. Como o número de vocações era grande na Europa e o trabalho no Brasil era muito logo vieram mais e mais membros. Em Belém, os Crúzios fundaram muitas paroquias e fizeram um excelente trabalho. De Belém a Minas Gerais na cidade de Juiz de Fora, depois para a diocese de Leopoldina, não demorou muito e estavam em Belo Horizonte e também em Campo Belo. Assumimos também uma paróquia em Miracema no Rio de Janeiro, mas nunca tivemos um convento lá.
Os Crúzios chegaram a fundar uma Província no Brasil, mas como em toda história da Ordem, aqui também houve crises. Houve então uma crise vocacional e as comunidades foram se enfraquecendo. Logo tiveram que deixar a Paroquia do Rio, assim como deixaram Belém para trás seguindo deixaram a diocese de Leopoldina e também Juiz de Fora. Ficaram somente em Belo Horizonte e Campo Belo. O trabalho parece ter se fixado melhor em Campo Belo e Belo Horizonte. Em Campo Belo cuidavam do Colégio Dom Cabral e das paróquias da cidade e de outras cidades vizinhas como a de Perdões onde por muitos anos o padre Bernardo Rutten foi pároco, em Belo Horizonte da paróquia Santa Tereza.
Infelizmente, diante de tudo isso, a província Senhor Bom Jesus, no Brasil, foi supressa, mas havia quatro jovens corajosos que perseveram na formação como brasa escondida nas cinzas de uma lamentável queimada. Os quatro jovens, Júlio, Elione, Wilson e José Claudio foram para fora do país estudaram e perseveraram firmes e o que os alimentava além do desejo de servir a Deus na OSC era dar um novo futuro para a Ordem no Brasil. Nosso querido Colégio Dom Cabral continuou sendo da Ordem e padre Aroldo morava sozinho nele, mas isso estava para mudar.
Tudo parecia ter chegado ao fim para a OSC no Brasil aos olhos do pobre e velho Padre Aroldo Hubers quando em 2010 os quatro jovens voltam de Roma diretamente para Campo Belo com a missão de recomeçar de um lugar de luz.
Hoje Campo Belo é nosso novo Clairlieu e eu tenho a alegria e a responsabilidade de ser parte dessa maravilhosa história e difícil caminho de levar adiante a existência de nossa Ordem no Brasil e no mundo. Em fim, como eu disse a história é fundamental para seguir em frente com força, coragem e determinação. Agradeço a Deus por me chamar a ser Crúzio, agradeço a OSC por me acolher e aos meus formadores por partilharem comigo essa história que agora é minha também. Tudo isso é em mim um forte grito da minha necessidade de servir a Deus como membro da OSC. Sigo adiante com fé e determinação. Ao meu lado caminha a responsabilidade de ser ao menos metade dos heróis que foram as gerações passadas de Crúzios.

 

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